Leo Soto

11 de julho de 2018

Morreu Léo Soto, pioneiro na imprensa do Estado

Léo Sebastião Soto, Léo Soto ou simplesmente tio Léo, um dos pioneiros do rádio mato-grossense uno e em especial do rádio três-lagoense, talvez não o mais brilhante, mas com certeza o mais fiel as suas paixões. Paixões estas resumidas em apenas quatro: Três Lagoas, o microfone, o Corinthians e posteriormente sua família (esposa, três filhos e um neto). Devo confessar que foi meu primeiro grande ídolo, dentre vários, espelho que visava realizar um sonho de um dia ser radialista, não tão bom quanto ele, mas simplesmente radialista.

No início da década de 60, em minhas férias, retornava à minha querida Três Lagoas e nada melhor para apreender os segredos do rádio do que acompanhar o professor. Lá íamos eu e meu tio Léo para os “serviços de alto falante Cruzeiro do Sul”, localizado a quatro quarteirões do hoje Mercado Municipal na região da lagoa maior. Para quem só viveu os tempos de internet, o alto falante, era junto com o rádio, o único meio de comunicação e se resumia em uma pequena sala com um microfone e um toca discos ligados externamente a um poste de uns 10 metros com duas cornetas de alto falantes, no nosso caso uma voltada para a região da cidade e outra voltada para a região onde hoje encontra-se um hotel, mas naqueles remotos tempos existiam várias chácaras, inclusive da minha saudosa tia Cantimira. Ao serviço era indispensável o uso de energia elétrica que era rara naquela região. Meu tio, em sua engenhosidade, emprestava a energia dos tios Nazário e Cecília e atravessava um fio elétrico pelo mato da nossa adorável lagoa até o alto falante, donde transmitia as notícias de Três Lagoas, do Brasil e do mundo, pois não tínhamos televisão, os jornais chegavam com atraso de dois dias e o nosso jornal era semanal, falar ao telefone era simplesmente pedir a ligação de manhã para falar somente a noite. Tio Léo oferecia música aos casais apaixonados e quantos romances assim se iniciaram.  Fazia propaganda do comércio local: Foto Zaguir, Casas Mão Verde e Pernambucanas, José Mascate.... a programação do cine Santa Helena e as 18:00 horas fechava os trabalhos rezando ao microfone a sua ave-maria dedicando-a as pessoas que haviam falecido naquele dia, sendo as mesmas famosas ou não, bastava pedir onde o encontrasse no correio, no cinema no bar Rainha dos Apóstolos ... trabalho que levou para as rádios por onde passou.  Foi ali que realizei o meu primeiro trabalho, sonoplasta, ou seja trocar os discos de 78 rotações que meu tio deixava ordenado e saia com sua bicicleta pesquisando o alcance do som do alto falante e eu alternando Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Carlos Alberto, ... confesso aqui um segredo: tínhamos uma senha, quando tocava Agostinho dos Santos ou Altemar Dutra, os cantores de que ele mais gostava, havia chegado o momento de reassumir o microfone.

Logo em seguida surgiu outra enorme paixão, os microfones da rádio am Difusora de Três Lagoas, mas não abandonou a paixão antiga e concomitante transferiu seu alto falante para a região da saudosa Noroeste do Brasil, ali na segunda esplanada de frente ao nosso campinho de futebol em uma casinha branca que teima em ficar de pé somente para contar a história, tendo como ouvinte os nobre ferroviários como: Pedro Rocha, Madrugada, Leonel, Gilberto Ribeiro, Chicão, Darci...

No início da década de 70 depois de muita pressão de suas irmãs, tio Léo fez teste e passou na grande rádio Bandeirantes de São Paulo, passando a fazer parte da equipe esportiva de Fiori Gigliotti, juntamente com Luiz Augusto Maltoni, Alexandre Santos, Flavio Araújo, Roberto Silva dentre outros. Equipe está que atingiu a maior audiência esportiva do rádio brasileiro. Lá fui eu ao longínquo bairro do Morumbi, onde naquele tempo tínhamos somente a rádio Bandeirantes, o palácio do governo e o estádio do Morumbi, esperando ali encontrar o tio Léo feliz e ansioso em transmitir uma partida do seu Corinthinas de Rivelino com o meu Santos de Pelé no estádio do Pacaembu e na esperança de conhecer o grande locutor Hélio Ribeiro do “Poder da Mensagem” com sua voz de tom barítono que posteriormente ficou marcado pelo personagem Roberval Taylor de Chico Anísio. O encontrei infeliz nada daquilo lhe agradava pois me dizia ter uma enorme saudade da sua Três Lagoas, ficou somente por um mês no “escrete do rádio” do Fiori Gigliotti e voltou.

Aparece então outra enorme paixão, os microfones da rádio am Caçula de Três Lagoas. Mais uma vez retornando a minha cidade recebi mais um de seus convites, ser repórter de campo em um clássico três-lagoense,  me confidenciou que o que lhe dava prazer não era os clássicos paulista, mas simplesmente transmitir do estádio da A.D.E.N. o clássico Noroeste (de todos os ferroviários e do meu pai Dagoberto Figueiredo) com seu uniforme vermelho e branco contra o Dom Bosco (do meu tio Antônio Figueiredo) com seu uniforme azul e branco, não era ver jogando Rivelino, Adãozinho, Pelé e Toninho mas ver jogando Bida, Zito, Cristovão, Major, Carrante, Arão... Fomos para o estádio, cabine de rádio modesta, de madeira ao lado esquerdo da arquibancada com dois lances de escada para chegarmos ao local, ali mais uma vez esticamos os fios, desta vez até o gramado e iniciamos o grande clássico mato-grossense. Naquele dia acabou o meu primeiro sonho, pois para ser radialista como meu tio Léo Soto deveria ser como ele, ter uma voz empostada e bonita, ter o dom do improviso, ter carisma, ter criatividade, saber o que é ou não notícia e ter a imparcialidade em divulga-la.

Um dos momentos em que o vi mais feliz, com exceção de seu casamento e do nascimento dos filhos e do neto, foi quando me informou que estaria frente a frente de seu maior ídolo, Silvio Santos, representando a sua Três Lagoas no programa “Cidade contra Cidade”.

Mais uma vez por pedidos de suas irmãs lá vai tio Léo trabalhar na rádio Difusora de Araçatuba. Não aguentou um mês e de saudades voltou, agora com outra paixão, a de ser empresário, e do seu modo foi o primeiro a trazer para Três Lagoas os grandes astros do cenário nacional, como Moacir Franco, Nelson Ned, Sérgio Reis, Tony Ramos, Paulo Sérgio o cantor que rivalizava com Roberto Carlos e título de rei, dentre outros. Nunca abandonando os microfones da sua Difusora ou Caçula.

Os Deuses do Rádio sempre com suas enormes sabedorias levaram Léo Sebastião Soto do plano terrestre no dia 15 de junho de 2018, exatamente no dia do aniversário da sua querida e inseparável Três Lagoas.

Quer saber onde andará Léo Sebastião Soto, Léo Soto ou simplesmente tio Léo? Procure-o em um outro plano, lá haverá uma Três Lagoas e ele estará na frente de um microfone no estúdio de uma rádio, mas não o incomode às 18:00 h, pois estará rezando a sua ave-maria.

 

Gilberto Figueiredo

(Químico Industrial, Professor de Ciências, Farmacêutico-Bioquímico e Sobrinho de Léo Sebastião Soto)